Triste Epopeia do Brasil
A
última obra-prima do regionalismo neo-realista surgido no Brasil durante a
década de 30, foi Fogo Morto de José Lins do Rego. Essa literatura regionalista
de caráter neo-realista, preocupava-se em apresentar os problemas e as desigualdades
sociais do Brasil. Por toda a obra de José Lins do Rego perpassa o lamento
invisível das coisas. E a decadência dos engenhos, com suas implicações
sociais. É uma obra muito bem estruturada, e pode-se dizer que o enredo anda de
mãos dadas com o contexto histórico da época, e com a vida do autor.Os
”Engenhos” do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agrícolas
destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Na década de 30 com a ascensão
das usinas, que passara a comprar dos engenhos sua produção bruta, a cana de
açúcar ainda não processada para fabricar o açúcar, a maior parte desses
engenhos foi aos poucos, deixando de ‘botar”, moer a cana para a fabricação do
açúcar. Passaram, então, apenas a vender
a matéria prima às usinas, tornando-se engenhos “de fogo morto”, improdutivo.
Perdem, assim, boa parte de seu poder, tornando-se reféns dos preços pagos
pelas usinas. Desse contexto, então, e da sua vivência na época, José Lins do
Rego, escreve Fogo Morto (título esse que tem a mesma da decadência dos
engenhos), que é estruturado em três partes cujo o título é o nome dos três
principais personagens da obra. O Mestre José Amaro; Coronel Lula de Holanda
Chacon e Capitão Vitorino.Mestre
José Amaro – Seleiro renomado da região, amargurado e sofrido, é todo
afetividade. Espera sempre bondade de alguém, senhor de engenho ou cangaceiro.
Também o respeito e a atenção do povo. Vive nas terras pertencentes ao Seu
Lula. A dedicação do homem ao ofício consome a saúde, dando-lhe uma aparência
doentia. Mora inicialmente com a filha Marta, uma solteirona, com seus 30 anos
que acaba enlouquecendo e, com a mulher, Sinhá. Mestre Amaro admira e respeita
os cangaceiros, e no decorrer do capítulo conversa com o cego Torquato e
Alípio, mensageiros do Capitão Antônio Silvino, cangaceiro temido da região.
Respeita-o por considerá-lo o vingador dos pobres e explorados. O Mestre é
amaldiçoado pelo povo, que o acusa de ser um lobisomem. Isso devido ao
semblante doentio, amarelado, da insônia que tinha que o fazia vagar pelas
madrugadas nas estradas da região.O
Seu Lula – Para contar a história desse personagem, o narrador (3° pessoa do
plural, onisciente) promove um flashback à época da construção do Engenho de
Santa Fé. O capitão Tomás Cabral de Neto, capitão que fundou o engenho, casou
sua filha, porque já estava ficando ’passada’, com o filho do Pernambucano
Antônio Chacon, que acabava de chegar à cidade, O Luís César de Holanda Chacon
– Lula. Era fino e estudado. Mas depois de casado vê-se que ele não se interessava
pelo trabalho do engenho, era mesmo um preguiçoso para os negócios. Até ente
então eram suspeitas, depois da morte do capitão, se confirmaram as suspeitas,
e mostrou-se um senhor de engenho autoritário, impunha severos castigos aos
escravos e vai contribuindo, com sua má administração, à decadência do Engenho
de Santa Fé.Capitão
Vitorino Carneiro da Cunha – É um personagem corajoso, eterno opositor, que
aceita as lutas, um idealista em defesa dos mais fracos. Perambulava pelas
estradas, como um cavaleiro errante, ostentando um poder e uma dignidade que
está longe de possuir, contudo, nesse último capítulo ele se eleva, assumindo a
condição de um homem idealista e quixotesco. De Dom Quixote, Vitorino possui o
sentido nobre dos gestos e uma percepção limitada da realidade, que o leva
investir contra tudo aquilo que lhe parece injustiça, sem medir a força do
inimigo, nem pensar nas conseqüências das ações. Trata-se de um liberal
humanista, mais preocupado com o uso e abuso da força do que propriamente com a
diferença social da sociedade da cana-de-açúcar.Fogo
Morto é profundamente triste. É uma epopeia da tristeza, da tristeza da terra
da terra nordestina, da sua gente, da tristeza do Brasil. Há na obra a consciência
de que tudo está condenado a adoecer, a morrer, a apodrecer. São três partes, três personagens centrais,
personagens diferentes, situações sociais diferentes que possuem um traço
psicológico em comum – o orgulho. E é pelo orgulho que procuram resistir à
decadência. Por toda obra de José Lins do Rego perpassa o lamento invisível das
coisas. E a decadência. Por dos engenhos nordestinos, com suas implicações
sociais.
- A
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