sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fogo Morto (José Lins do Rego)

Triste Epopeia do Brasil
A última obra-prima do regionalismo neo-realista surgido no Brasil durante a década de 30, foi Fogo Morto de José Lins do Rego. Essa literatura regionalista de caráter neo-realista, preocupava-se em apresentar os problemas e as desigualdades sociais do Brasil. Por toda a obra de José Lins do Rego perpassa o lamento invisível das coisas. E a decadência dos engenhos, com suas implicações sociais. É uma obra muito bem estruturada, e pode-se dizer que o enredo anda de mãos dadas com o contexto histórico da época, e com a vida do autor.Os ”Engenhos” do Nordeste eram, originalmente, estabelecimentos agrícolas destinados à cultura da cana e à fabricação do açúcar. Na década de 30 com a ascensão das usinas, que passara a comprar dos engenhos sua produção bruta, a cana de açúcar ainda não processada para fabricar o açúcar, a maior parte desses engenhos foi aos poucos, deixando de ‘botar”, moer a cana para a fabricação do açúcar. Passaram, então,  apenas a vender a matéria prima às usinas, tornando-se engenhos “de fogo morto”, improdutivo. Perdem, assim, boa parte de seu poder, tornando-se reféns dos preços pagos pelas usinas. Desse contexto, então, e da sua vivência na época, José Lins do Rego, escreve Fogo Morto (título esse que tem a mesma da decadência dos engenhos), que é estruturado em três partes cujo o título é o nome dos três principais personagens da obra. O Mestre José Amaro; Coronel Lula de Holanda Chacon e Capitão Vitorino.Mestre José Amaro – Seleiro renomado da região, amargurado e sofrido, é todo afetividade. Espera sempre bondade de alguém, senhor de engenho ou cangaceiro. Também o respeito e a atenção do povo. Vive nas terras pertencentes ao Seu Lula. A dedicação do homem ao ofício consome a saúde, dando-lhe uma aparência doentia. Mora inicialmente com a filha Marta, uma solteirona, com seus 30 anos que acaba enlouquecendo e, com a mulher, Sinhá. Mestre Amaro admira e respeita os cangaceiros, e no decorrer do capítulo conversa com o cego Torquato e Alípio, mensageiros do Capitão Antônio Silvino, cangaceiro temido da região. Respeita-o por considerá-lo o vingador dos pobres e explorados. O Mestre é amaldiçoado pelo povo, que o acusa de ser um lobisomem. Isso devido ao semblante doentio, amarelado, da insônia que tinha que o fazia vagar pelas madrugadas nas estradas da região.O Seu Lula – Para contar a história desse personagem, o narrador (3° pessoa do plural, onisciente) promove um flashback à época da construção do Engenho de Santa Fé. O capitão Tomás Cabral de Neto, capitão que fundou o engenho, casou sua filha, porque já estava ficando ’passada’, com o filho do Pernambucano Antônio Chacon, que acabava de chegar à cidade, O Luís César de Holanda Chacon – Lula. Era fino e estudado. Mas depois de casado vê-se que ele não se interessava pelo trabalho do engenho, era mesmo um preguiçoso para os negócios. Até ente então eram suspeitas, depois da morte do capitão, se confirmaram as suspeitas, e mostrou-se um senhor de engenho autoritário, impunha severos castigos aos escravos e vai contribuindo, com sua má administração, à decadência do Engenho de Santa Fé.Capitão Vitorino Carneiro da Cunha – É um personagem corajoso, eterno opositor, que aceita as lutas, um idealista em defesa dos mais fracos. Perambulava pelas estradas, como um cavaleiro errante, ostentando um poder e uma dignidade que está longe de possuir, contudo, nesse último capítulo ele se eleva, assumindo a condição de um homem idealista e quixotesco. De Dom Quixote, Vitorino possui o sentido nobre dos gestos e uma percepção limitada da realidade, que o leva investir contra tudo aquilo que lhe parece injustiça, sem medir a força do inimigo, nem pensar nas conseqüências das ações. Trata-se de um liberal humanista, mais preocupado com o uso e abuso da força do que propriamente com a diferença social da sociedade da cana-de-açúcar.Fogo Morto é profundamente triste. É uma epopeia da tristeza, da tristeza da terra da terra nordestina, da sua gente, da tristeza do Brasil. Há na obra a consciência de que tudo está condenado a adoecer, a morrer, a apodrecer.  São três partes, três personagens centrais, personagens diferentes, situações sociais diferentes que possuem um traço psicológico em comum – o orgulho. E é pelo orgulho que procuram resistir à decadência. Por toda obra de José Lins do Rego perpassa o lamento invisível das coisas. E a decadência. Por dos engenhos nordestinos, com suas implicações sociais.
- A

Nenhum comentário:

Postar um comentário