Cru e nu. É desta maneira
em que a história da independência da Angola é descrita por trás das páginas polifônicas de A GERAÇÃO DA UTOPIA, romance
intenso escrito por Pepetela, através de 30 anos na história de jovens
angolanos com ideologias políticas diferentes, porém, com um objetivo em comum:
a libertação de sua terra natal. Objetivo que mais tarde pareceria muito mais
bonito enquanto habitava apenas o mundo das idéias. É nesta dualidade de
idealização-realização, ilusão-desilusão, esperança-desesperança e
sucesso-fracasso que caminha a história de A GERAÇÃO UTOPIA, tendo sua história
dividida em quatro partes, em não mais que 375 páginas escritas pelo angolano
Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos – vulgo Pepetela - em Berlim e
publicada em Portugal em 1992, pela editora Nova Fronteira. A história se
inicia em “A Casa”, a primeira parte, com o início da revolta contra o sistema
de colônia ao qual a Angola era submetida, e também a necessidade de mudança em
relação no governo ditatorial imposto por Salazar, em
Portugal. A história
se passa principalmente na Casa dos Estudantes, situada em Lisboa, lugar
direcionado aos jovens angolanos que iam para lá para estudar, porém o lugar
servia especialmente para revolucionários que discutiam sobre seu papel na
política e no futuro da Angola. É nesta parte também que são apresentados os
personagens: Sara, Malongo, Aníbal, Vítor, entre outros. Por fim, os
personagens vão para a França, que naquele momento era vista como um porto
seguro. A segunda parte, “A Chana”, se passa nas regiões desérticas da
fronteira com a Zâmbia. É a guerra de libertação da Angola. A realidade se
mostra muito mais dura do que alguns imaginavam, pois há fome, sangue, fadiga e
desespero. Na terceira parte, “O Polvo”, a história se passa no meio da Guerra
Civil, e há corrupção. Aníbal aparece desiludido, pois o sistema que ele mesmo
ajudou a criar não se parece tão bonito e igualitário como ele sonhava ser. A
última parte, “O Templo”, é uma referencia a busca da religião como força, e
líderes corruptos aproveitando-se da fraqueza das pessoas. Vemos os antigos
guerrilheiros, agora ministros, e pessoas que defendiam a liberdade, agora
corrompidas pelo poder. Nesta parte tem-se de fato a morte da Utopia desta
geração – apenas desta,
pois outras gerações (como a Judite, filha de Sara e Malongo, e seu namorado
Orlando), manterão esse espírito sonhador em pé, e isso se seguirá geração após
geração, pois como na primeira frase do livro, Pepetela deixa claro que
“Portanto, só os ciclos são eternos”. Uma história que não tem
ponto final. Como poderia ter, se a história da Angola ainda está sendo escrita?
Como poderia ter, se cada geração, cada país, também vivencia esta utopia de
uma sociedade melhor, mais livre, justa e igualitária? É por este caráter
transgressor de seu tempo que a história se repete a cada dia. Diariamente
sonhos morrem, mas também há sonhos que nascem, e com ele há gerações que se
consagrarão em prol de uma vida melhor, pois a utopia está dentro do ser humano e é o que move e promove
mudanças no mundo. Por isso, A GERAÇÃO DA UTOPIA, apesar de tratar do
desencanto, não é pessimista, e no mínimo, motiva a transformação e é um
convite a ir além, para um mundo de sonhos e possibilidades.
- M
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